EXEMPLO REGIONAL: Bothrops leucurus (Wagler, 1824)

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NOME VULGAR: jararaca-do-rabo-branco e/ou caiçaca (quando filhote) e malha-de-sapo, cabeça-de-capanga, jaracuçu, jararacuçu, jaracuçu-de-quatro-ventas, caiçaca, patrona e/ou jararaca (quando adulta).

POSIÇÃO SISTEMÁTICA: (segundo Campbell & Lamar, 1989; Pough et al., 1996)

  • Filo: Chordata
  • Subfilo: Craniata
  • Classe: Reptilia
  • Ordem: Squamata
  • Sub-ordem: Serpentes
  • Família: Viperidae
  • Gênero: Bothrops
  • Espécie: B. leucurus
  • Sinonímia: B. neuwiedi, B. megaera
  • Autor da espécie e ano da descrição: Wagler, 1824

HABITAT/MODO DE VIDA:
A serpente B. leucurus (Wagler, 1824) é terrícola, noturna e habita as Florestas tropical Caducifólia e Subcaducifólia, áreas de tensão ecológica (entre o cerrado e as Florestas tropical Caducifólia e Subcaducifólia e entre a restinga e a Floresta tropical Atlântica nos seus diferentes níveis de degradação), campos rupestres e remanescentes da Floresta tropical Atlântica, incluindo áreas de forte ação antrópica, urbanizadas e campos cultivados.

ASPECTOS MORFOLÓGICOS:
As jararacas apresentam 1 par de fossetas loreais (órgão utilizado na percepção de calor - termoreceptor) entre o olho e a narina, porisso é muitas vezes chamada de cobra de "quatro-ventas". A dentição é do tipo solenóglifa (1 par de dentes anteriores modificados em presas inoculadoras de venenos, grandes, móveis, totalmente canaliculadas e recobertas por uma bainha protetora). A cabeça é triangular com numerosas escamas pequenas e irregulares no topo, e a cauda tem escamas lisas, sem nenhum tipo de modificação.
A B. leucurus é uma espécie de médio porte (280 mm a 1870 mm) que possui vários padrões de coloração, e as diferenças mais marcantes podem ser observadas entre jovens e adultos. De maneira geral tem um padrão dorsal usualmente cinza ou amarronzado, com manchas negras em forma de um "V" invertido, além de uma faixa pós ocular bem definida e um ventre axadrezado de coloração cinza e amarelada. Como características diferenciais pode-se observar uma escama lacunolabial (que é a segunda escama supralabial fusionada com a escama prelacunal), escamas supralabiais maculadas com manchas negras, 195 a 225 escamas ventrais e mais que 6 escamas intersupraoculares.

ACIDENTES:
O gênero Bothrops é responsável pelo maior percentual de acidentes (94%) e óbitos (62,5%) na Bahia e esta espécie é a de maior interesse médico em nosso Estado, pela sua ampla distribuição geográfica e por causar todos os acidentes provenientes da Região Metropolitana do Salvador. O seu veneno de ação proteolítica (destrói proteínas), coagulante (age como um fator da coagulação sanguínea, ativando a cascata da coagulação e levando ao consumo de fibrinogênio) e hemorrágica (destrói as membranas do endotélio vascular) causa em vítimas humanas manifestações locais como dor, edema (inchaço), acompanhado ou não de equimose (arroxeamento), necrose e abscesso, que podem levar à amputação do membro atingido, além de manifestações sistêmicas, com alteração da coagulação sanguínea, sangramento ou hemorragia, choque e insuficiência renal.
Por estes efeitos não recomendamos o uso de garrote, sucção, incisão ou corte no local da picada, nem de beberagens ou similares, já que o veneno inoculado não sairá do corpo, nem será diminuida sua ação com o uso de tais práticas. Recomenda-se que o acidentado lave o local da picada com água e sabão ou passe álcool, beba muita água, eleve o membro atingido (sem dobrá-lo) e seja levado imediatamente para um posto de saúde afim de receber, via endovenosa, o soro antibotróbico, anti-botrópico/crotálico ou antibotrópico/laquético, além das medidas coadjuvantes como a hidratação, antibioticoterapia e profilaxia anti-tetânica.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA:
Ocorre no Nordeste e Sudeste do Brasil, do estado de Ceará até o Espírito Santo, em ambientes de clima úmido (60 a 20 mm), úmido a sub-úmido (20 a 0 mm) e seco a sub-úmido (0 a -20 mm). Na Bahia, esta espécie ocorre em praticamente todas as regiões, com exceção do vale Sanfranciscano, caracterizado por ambiente exclusivamente de caatinga e extremo-oeste, caracterizado por ambiente exclusivamente de cerrado. Sua distribuição coincide com o domínio morfo-climático da Floresta tropical Atlântica.

HÁBITOS ALIMENTARES:
A composição da dieta desta espécie caracteriza-se por lagartos (Cnemidophorus sp, C. ocellifer, Phylopezus sp, P. policaris, Tropidurus sp, T. hispidus e Teiidae) e anfíbios (Hylidae e Anura) como alimento preferencial dos filhotes e roedores (Muridae) dos adultos. A parte distal da cauda de cor branca ou amarelada, nos machos jovens, indica o uso de engodo caudal, para atrair presas insetívoras como lagartos e anfíbios, sendo portanto fácil a distinção sexual nesta fase do desenvolvimento, já que as fêmeas possuem a ponta da cauda de coloração cinza.

REPRODUÇÃO:
Esta espécie é vivípara e tem no outono (setembro e outubro) a época preferencial para a côrte, e o verão (janeiro a março), a época preferencial para o nascimento dos filhotes. O período mínimo de gestação é de 147 dias (cerca de 5 meses), onde nascem em média 12 filhotes por ninhada, com tamanho e peso médios de 27 cm e 7 g respectivamente, e numa proporção sexual de 40% de fêmeas para 60% de machos.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:
Campbell, J.A., Lamar, W.W. The Venomous Reptiles of Latin America. Ithaca: Ed. Cornell University Press. 1989. 425p.
Lira-da-Silva, R.M. Estudo Clínico-Epidemiológico dos Acidentes por Bothrops leucurus na Região Metropolitana do Salvador, Bahia. Salvador, 1996. 154 p. il. Mestrado em Medicina Preventiva. Área Medicina. Universidade Federal da Bahia. 1996.
Lira-da-Silva, R.M., Nunes, T.B. Ophidic Accidents by Bothrops leucurus Wagler, 1824 in Bahia, Brazil. Toxicon, Oxford, v. 31, n.2, p. 143-144. 1993.
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Lira-da-Silva, R.M., Casais-e-Silva, L.L., Queiroz, I.B., Nunes, T.B. Contribuição à Biologia de Serpentes da Bahia, Brasil. I. Vivíparas. Revta. bras. Zool., Curitiba, v.11, n. 2, p. 187-193. 1994.
Lira-da-Silva, R.M., Vasconcelos, C.M.L., Guarnieri, M.C. Partial Characterization of Bothrops leucurus Venom. In: IV SIMPÓSIO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE TOXINOLOGIA, 1996. Recife. Resumos, Recife: SBTx, 1996. p. 165.
Lira-da-Silva, andrade-Lima, R., Dias, E.J.R. Bothrops leucurus (Serpentes; Viperidae): Padrão Alimentar. In: IV CONGRESSO LATINOAMERICANO DE HERPETOLOGIA, 1996. Santiago. Resumos, Santiago: Sociedade Latinoamericana de Zoologia, 1996. p. 152.
Lira-da-Silva, Andrade-Lima, R., Brazil, T.K. Distribuição geográfica de Bothrops leucurus (Serpentes; Viperidae). In: IV CONGRESSO LATINOAMERICANO DE HERPETOLOGIA, 1996. Santiago. Resumos, Santiago: Sociedade Latinoamericana de Zoologia, 1996. p. 153.
Porto, M., Teixeira, D.M. Bothrops leucurus (White-tailed Lancehead). Herpetological Review, v. 26, n. 3. p. 156. 1995.
Ribeiro, L.A., Jorge, M.T. Epidemiologia e Quadro Clínico dos Pacientes Picados por Serpentes Bothrops jararaca Adultas e Filhotes. Rev. Inst. Med. Trop. São Paulo, São Paulo, v. 32, n. 6, p. 436-442. 1990.
Rodrigues, D.S., Teles, A.M.S., Machado, M.A., Vargens, M.M.L., Nascimento, I.M., Planzo, T.M.P. Ofidismo na Bahia: Um Problema de Saúde Pública. Rev. Soc. Bras. Toxicologia, Salvador, v. 1, n. 1, p. 23-25. 1988.

ELABORAÇÃO DA FICHA:
Rejâne Mª Lira da Silva
E-mail: rejane@ufba.br

AUTOR DA FOTO: Wolfgang Wüster (School of Biological Sciences, University of Wales England)

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